Cicloviagem Estrada das Pontes GO – Formosa á Alto Paraíso de Goiás

Equipe Paracambike 9 de novembro de 2015 Historias de Pedal

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1º Dia:

Dois amigos de quase 15 anos de amizade resolveram fazer a tão desafiadora estrada das pontes. O Seriema com mais de 20 anos de experiência em pedal e o Paracambike novato com pouco mais de um ano em cima das magrelas. Durante todo caminho lembrávamos do monstro do Mtb nacional campeão mundial master Hélio Vilela vulgo Papai Noel que em seu primeiro longao fez este caminho. Ao assistir sua entrevista contando como sofreu aqui me fez querer muito conhecer esse desafio.

Pra quem não conhece vou explicar um pouco da região, a cidade de Formosa é praticamente a porta de entrada para a Capada dos Veadeiros, não a entrada do parque nacional em si que este é em São Jorge, mas saindo de Formosa e iniciando a estrada de terra se inicia a cadeia de montanhas que formam a chapada dos Veadeiros, um verdadeiro paredão de centenas de quilômetros e uma estrada no meio. Um vale, durante todo o percurso a paisagem era incrível. Terra à frente e montanhas a volta.

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No primeiro dia eis que o desafio era nada menos que 175 km que para o Seriema que já tinha feito o dizia que seria um dia duro, devido a alta quilometragem mas que o percurso era “relativamente plano”.

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Iniciamos o dia com um deslocamento de 31 km de asfalto, boa parte em descida acelerou bastante o nosso ritmo, alcançando uma media de mais que 30 km/h. Entrando na estrada de terra continuamos num ritmo forte. Fizemos nossa primeira parada para reabastecer com pouco mais de uma hora e meia de pedal e ja havíamos rodado mais de 35 km seria uma parada rápida, apenas para uma coca e um pão de queijo e logo seguiríamos rumo o próximo ponto de parada programado.

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Até que por volta dos 80 km a trava que segura a corrente do meu câmbio (Vitim/mandioca) se quebrou e com isso era obrigado a andar sempre com a corrente muito esticada,estávamos com uma média de 25km/h muito forte para o que viria pela frente eis que seria nosso principal erro! Mudim/magaiver logo tratou de arrumar uma solução para meu cambio e conseguimos manter um ritmo razoável!

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Logo pela manhã notamos que o dia seria muito quente por volta das 8h já tínhamos algo em torno de 30 graus nos acompanhando mas não parou por aí, nossa primeira perna de 90 km rendeu bem porém o sol castigava e os garmins marcaram mais de 40 graus durante todo dia e com picos de 45 graus em certos pontos, algo surreal e agravado pelo fato de estarmos no cerrado com umidade baixíssima!

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Confesso que com 90 km eu já tava bem cansado mas seguimos firme e a partir daí tivemos outro problema com os pontos de parada que havíamos programado e estavam quase todos fechados! Conseguimos com muito custo chegar a uma venda no km 105 que tinha a melhor sombra da minha vida deitamos ali mesmo e conseguimos nos recuperar por quase uma hora até para ver se o sol não castigasse tanto no final.

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Segundo o Mudim e seu pedal plano os últimos 40 km seria duros devido ao terreno com muita terra fofa e costelas de vaca mas plano! Estou até agora procurando o plano pq na verdade esses últimos 40 km era um falso plano extremamente duro é interminável! Paramos diversas vezes pq não aguentávamos mais aquela situação, pensamos em “aceitar” uma carona se existisse mas quem disse que ela veio! Nos últimos 20km nós dois já estavam literalmente quebrados e o psicológico mais abalado ainda.

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O tal do vilarejo do forte não chegava NUNCA e o tal do plano com uma subida atrás da outra! Momento mais aterrorizante do dia foi quando nos deparamos no meio do nada, nada mesmo estávamos a semente 3 km do Forte. Esses 3km demoraram uma eternidade!

A verdade é que em resumo o sol nos castigou muito e as várias paradas para arrumar meu cambio acabou com a nossa constância. Agravado ao fator seca que não pensamos que todos os rios estariam secos, o que dificultou muito nossa hidratação.

Conseguimos chegar ao forte por volta das 21h 1:30 a mais do que havíamos planejado. Chegamos na pousada da dona Dora e cada um caçou um canto pra se encostar eu fiquei por quase uma hora na mesma posição tentando entender o que havia acontecido no dia e o Mudim dormiu de roncar no chão de pedras da dona Dora, do jeito que chegou.

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Após nos recuperarmos analisamos o dia e vimos que foi extremamente produtivo, tirando meu cambio não tivemos mais nenhum problema com as magrelas, concluímos o objetivo inicial e agora era hora de se preparar para o próximo desafio quase 70 km com a pior subida da vida do Mudim segundo ele!

Só para constar o tal do relativamente plano de 170 km teve um ganho de elevação de quase 1600 metros e mais de mil só na parte final que seria moleza segundo ele.

Obs do dia: quando saímos de formosa combinamos de contar as pontes sempre minha conta era diferente da dele por uma, Rs! Mas a verdade é que no km 100 perdemos a conta completamente o que eu lembro era que eu achava que era 25 e ele 23, a partir daí não tínhamos mais forças nem pra contar pontes. Em uma das paradas num antigo assentamento hoje uma vila, como sempre um monte de moradores vinham conversar com a gente querendo saber o que aqueles loucos estavam fazendo ali nessa lua, um senhor disse que eram 48 pontes até ali, de lá até o forte foram mais 62 km e diversas pontes!

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Acredito que nunca vou saber a conta exata! Mas quem sabe na próxima? Próxima???? Isso mesmo depois do sofrimento de hoje ainda queremos repetir! Esse é o MTB esporte que apaixona a todos que experimentam!

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2º Dia:

Após a presepada toda do primeiro dia, estavamos extremamente exaustos e combinamos de dormir bem para tentar descansar ao máximo para encarara a montanha que viria a frente.

Acordamos por Volta das 7:30 arrumamos a tralha toda enquanto a dona Dora preparava o café para os malucos que chegaram quase mortos. Depois de algum tempo percebi onde tinha passado a noite, estavamos exatamente aos pés de uma montanha linda que faz parte da chapada dos Veadeiros, paisagem essa que nos fez ter certeza de que o dia seria lindo e duro pois a meta era atravessar essa montanha rumo a Alto Paraíso de Goias.

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Apos o farto café da manha tratamos de nos apressar, confesso que sem vontade nenhuma de encarar 65km de subida, mas o dever nos chamava. Logo no começo já me sentia muito mal, estomago sempre embrulhando, com certeza pelo desgaste e desidratação do dia anterior. Sabiamos que teriamos apenas 1 parada nesses 65 km, que seria por volta do km 20.

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Logo no inicio do pedal o mudim estava eufórico dizendo Vitim já andamos 10 km, o motivo da euforia era que na noite anterior faltando 3 km para o forte não conseguiamos nunca chegar, era desesperador. E no segundo dia nos lugares com inclinações parecidas com o dia anterior estavamos pedalando, quando antes empurramos bastante a bike.

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Como de costume desta viagem o tal “buteco” não chegava e eu ja estava sem esperança dele estar aberto. Eis que vem a primeira historia do dia. Mesmo com toda confusão mental pelo esforço eu via rastros de bike a nossa frente e comentava “mudim tem bike ai pra frete” e ele “para mandioca é moto”, mas o tempo todo eu via rastros de bike e ele achando que eu tava vendo os rastros da bike dele. Até que chegamos a um grande rio que tinhamos que atravessar e o mistério foi desvendado.

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Realmente tinha uma bike, seu dono um amigo e um jugue. Todos se refrescando como podiam, não pensei duas vezes corri pra dentro do rio que por incrível que pareça estava bem quente, muito diferente da região.

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Aproveitei que encontramos com os viajantes e de teimoso que sou perguntei, existe um buteco ai pra frente, logo respodera: “tem sim, mas ta longe ein” e como sempre falavam “seis vem de longe ein”. Não sei pq eu ainda pergunto se tinha ou se tava longe, a resposta é sempre a mesma “5km ” que hoje entendo esses km viram 10 15 fácil.

Logo seguimos para não perder o ritmo e encontramos o “buteco” com um senhor simpático que como todos no caminho queriam saber nossas historias e tentavam ao máximo nos ajudar. Ali eu já estava ainda mais exausto e o calor castigando. Tratei logo de deitar e o mudim foi mais uma vez arrumar meu cambio.

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Seguimos mais uma vez sem a certeza de parada, porem com uma grande preocupação, Agua. Ao sairmos do buteco sentimos que o sol seria muito mais quente que no dia anterior, os termômetros marcaram 48 graus, temperatura em que eu nunca havia pedalado antes, a sombra estava exatamente abaixo de nos, e não havia uma arvore sequer para dar um alivio.

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Por sorte encontramos uma escola rural, fechada porem com indícios de ser ativa, procuramos bebedouros mas nada dele, somente torneiras que as crianças lavavam as mão para a merenda. O que para nos naquele momento era o paraíso.

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Depois dessa parada sabiamos que logo chegaria a tão esperada subida de 25km, no GPS o nome dela era Subidona. Passamos a primeira montanha, estavamos eufóricos, eu queria muito chegar em Alto pedalando, mas o corpo não respondia como esperado.

Nosso ritmo estava muito bom, algumas sobras surgiam e sempre tratamos de “zigzaguear” pela estrada atras das minimas sombras. Paramos para o ultimo lanche almoço antes da tal “subidona”, meu estomago não aguentava mais Gel de carbo, amendoim, paçoca. Nada descia.

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Seguimos em frente, eis que surge um paredão a minha frente, para quem conhece Paracambi, eu estava diante da Petrobras, sempre dura mas dessa vez ela vinha com uma carga de 235km anteriores, tentei subi a metade e por não conseguir dominar minha mente falei “vou empurrar” não aguentava mais subir, mas acho que devia ter tentado só mais alguns metros. Empurrar estava ainda mais difícil. Gustavo seguiu, com toda bagagem de cicloviajante falou “posso subir” não pensei duas vezes gritei “então zera!”. Ele iria me esperar no topo da montanha mas eu mal conseguia caminhar com a bike, pedia a todo momento “uma caminhonete, caminhão” e nesse momento Deus mandou quem? uma moto velha mas que salvou meu dia. Não pensei duas vezes e gritei moço me leva la em cima. Subi correndo até a moto e aceitei a carona. Seria somente até o final dessa subida, mas ainda faltavam 20 km até Alto Paraíso e no final da subida ao encontrar o mudim ele disse “tem mais uma montanha la na frente me encontra la” o motoqueiro sem pensar duas vezes disse. “Vou até alto se quiser te deixo la perto.” Aceitei a carona de uns 15km onde o amigo dizia não ter mais subida e ali fiquei deitado no meio da estrada esperando o Gustavo, a hora ia passando e nada dele, já estava ficando preocupado, tinha feito o caminho de moto e a sabia que não era fácil e ele poderia estar sem água. Dito e feito do nada chega ele de carona numa saveiro gritando “bora madioka acabou a água”

Enfim chegamos em Alto Paraiso, de uma forma que  não queriamos de forma alguma, mas foi a decisão mais prudente a se tomar, não tínhamos nenhum tipo de apoio ou ponto para conseguir água. O sol estava muito quente e nosso corpo não aceitava mais a ração dos dias anteriores. Concluímos o desafio com várias lições e aprendizado e a certeza era comum, de que ano que vem voltaremos lá e chegaremos em alto com menos sofrimento que desta vez.

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Com certeza apos esses 250 km do maior desafio da minha vida tivemos a certeza que estamos mais vivos do que nunca e que não existem limites quando estamos focados no objetivo. Fomos ousados, mas se não for não tem graça.

Agradeço muito ao meu grande amigo Gustavo Primo vulgo mudim pelo convite e pela oportunidade que me deu de conhecer o meu limite e sempre supera-lo.

Agradeço também a nossa família Paracambike que sempre apoia no que pode e que me apresentou este esporte, espero mesmo que nas próximas presepadas mais amigos estejam presentes.

Não posso esquecer aos grandes amigos Seriemas que fiz na minha primeira ciclo Gyn-Piri, que me fez apaixonar por este estilo de pedal, onde não existe competição e todos tem um único objetivo, chegar e se divertir no caminho.

Obrigado aos amigos e familiares que nos chamavam de loucos a todo momento que comentamos o que iriamos encarar e que sempre se preocuparam com os perigos do caminho. A força de vocês que nos fez chegar e tomar essa gelada que tanto almejamos durante todo o percurso.

 

Espero que tenham gostado do relato. Se gostaram por favor, curtam, comentem e compartilham. Vem mais presepadas por ai…

Link para as fotos aqui!!!!

Aguardem o relato do Gustavo, vem resumo por ai…Rs (www.seriemapedal.com)

Victor Ribas

6 Comentários

  1. Belo relato,e parabéns pela sua conquista e ao mudim

  2. Só fortes consegue….

  3. Mermaaaoo!!! Ficou tooooppp o relato! Apesar de ser quase impossível descrever em palavras uma aventura dessas, faz a gente arrepiar ao lembrar de cada momento. Foi top! E tenho certeza que teremos muuuuuuitas outras pela frente!!!

  4. Parabéns aos fortes, sem palavras!!

  5. Parabéns por cada dia, cada desafio! Você merece conquistar tudo.

  6. Pedal top, belo relato

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